Sábado, Janeiro 31, 2004

Japão

Noite de outono

Frio intenso: insectos volteiam em torno das luzes.
Eu fecho o shôji
E uma cara é reflectida, como a de um rebelde Taiping, enorme.
Sentando-me em silêncio, bebendo água açucarada,
Escrevo até tarde.
A minha veste, há muito posta de lado, cheira a antigamente.
Logo, um som solitário, de novo
Uma tosse de mulher que chega da vizinhança do espinheiro.
Abro o shôji para ver, mas nem uma alma; apenas
Como papel de prata
A plácida noite do outono, adormecida.

Tanaka Fuyuju (1894-1980)

Trad. José Alberto Oliveira


Novembro 2002 Fotografia de Paulo Moura

ouvindo a banda sonora do filme "Lost in Translation"







La vie en rose

Des yeus qui font baisser les miens
Un rire qui se perd sur sa bouche
Voilà le portrait sans retouches
De l'homme auquel j'appartiens.

Quand il me prend dans ses bras
Qu'il me parle tout bras
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça me fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C'est lui pour moi, moi pour lui, dans la vie
Il me l'a dit, l'a juré, pour la vie
Et dès que je l'aperçois
Alors je sens en moi
Mon coeur qui bat.

Des nuits d'amour à plus finir
Un grand bonheur qui prend sa place
Les ennuis, les chagrins s'effacent
Heureux, heureux à en mourir.

Quand il me prend dans ses bras
Qu'il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça me fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C'est toi pour moi, moi pour toi, dans la vie
Tu me l'as dit, l'as juré, pour la vie
Et dès que je t'aperçois
Alors je sens en moi
Mon coeur qui bat.

Édith Piaf (1915-1963)



ouvindo:
La vie en rose (Édith Piaf)
Paloma Berganza



"Et Paris qui bat la mesure,
Paris qui mesure notre émoi..."
(la valse a mille temps)

continuando a ouvir:
La vie en rose (Édith Piaf)
Grace Jones



e ouvindo ainda:
La vie en rose (Édit Piaf)
Chieco Kinbara

Segunda-feira, Janeiro 26, 2004

Carta (esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice (n.1949)

ouvindo:
Requiem pour un Con
Pierre-Alain Goualch





Domingo, Janeiro 25, 2004

Tristeza

Perto de onde se ouvem as ondas azuis do céu
Acho que perdi
Qualquer coisa de muito valor.

Numa estação nitidamente no passado
Em frente do funcionário dos perdidos e achados
Senti-me ainda mais triste.

Tanikawa Shuntaro (n.1931)

tradução de Alberto Oliveira

Japão

Novembro 2002 Fotografia de Paulo Moura

ouvindo:
a espera
Chieko kinbara

Terça-feira, Janeiro 20, 2004

A Desfolhada

Corpo de linho
lábios de mosto
meu corpo lindo
meu fogo posto.
Eira de milho
luar de Agosto
quem faz um filho
fá-lo por gosto.
É milho-rei
milho vermelho
cravo de carne
bago de amor
filho de um rei
que sendo velho
volta a nascer
quando há calor.

Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.

Minha raiz de pinho verde
meu céu azul tocando a serra
oh minha água e minha sede
oh mar ao sul da minha terra.

É trigo loiro
é além tejo
o meu país
neste momento
o sol o queima
o vento o beija
seara louca em movimento.

Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.

Olhos de amêndoa
cisterna escura
onde se alpendra
a desventura.
Moira escondida
moira encantada
lenda perdida
lenda encontrada.
Oh minha terra
minha aventura
casca de noz
desamparada.
Oh minha terra
minha lonjura
por mim perdida
por mim achada.

José Carlos Ary dos Santos

Ouvindo:
Em vinil:
"A desfolhada portuguesa" cantada por Simone de Oliveira
Música levada por Portugal ao festival da eurovisão em 1969
com música de Nuno da Nazareth Fernandes
e arranjos e direcção de orquestra de Joaquim Luís Gomes

Domingo, Janeiro 18, 2004

Je t'aime moi non plus

-Je t'aime je t'aime
Oh, oui je t'aime!
-Moi non plus
-Oh, mon amour...
-Comme la vague irrésolue
Je vais je vais et je viens
Entre tes reins
Et je
Me re-
Tiens
-Je t'aime je t'aime
Oh, oui je t'aime!
-Moi non plus
-Oh mon amour...
Tu es la vague, moi l'ile nue
Tu va et tu viens
Entre mes reins
Tu vas et tu viens
Entre mes reins
Et je
Te re-
Joins

-Je t'aime je t'aime
Oh oui je t'aime!
-Moi non plus
-Oh, mon amour...
-L'amour physique est sans issue
Je vais et je viens
Entre tes reins
Je vais et je viens
Et je me retiens
-Non! main-
Tenant
Viens!

Serge Gainsbourg

Ouvindo:
je t'aime ... moi non plus
Jane Birkin e Serge Gainsbourg



Terça-feira, Janeiro 13, 2004

O AMOR

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.

Assim é o amor: mortal e navegável.

Eugénio de Andrade (n.1923)

ouvindo:
a pianista Japonesa Ito Ema
num Steinway & Sons Model D#114571
a tocar as Variações Goldberg de Johann Sebastian Bach

Domingo, Janeiro 11, 2004

AMOR

Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acercados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!

Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.

Amor, tão chão de Amor,
Que sensivel és...
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!

Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e enfurece
e logo recai na branda impotência.

Canseira eterna!
Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes,
tanto grito e pena perdida...
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti
e tu de nós?

Irene Lisboa (1892-1958)

ouvindo:
Sonata para piano nº23, Appassionata (1º movimento)
Luduig Van Beethoven (1770-1827)

Sábado, Janeiro 10, 2004

La noyée

Tu t'en vas à la dérive
Sur la rivière du souvenir
Et moi, courant sur la rive,
Je te crie de revenir
Mais, lentement, tu t'éloignes
Et dans ma course éperdue,
Peu à peu, je te regagne
Un peu de terrain perdu.

De temps en temps, tu t'enfonces
Dans le liquide mouvant
Ou bien, frôlant quelques ronces,
Tu hésites et tu m'attends
En te cachant la figure
Dans ta robe retroussée,
De peur que ne te défigurent
Et la honte et les regrets.

Tu n'es plus qu'une pauvre épave,
Chienne crevée au fil de l'eau
Mais je reste ton esclave
Et plonge dans le ruisseau
Quand le souvenir s'arrête
Et l'océan de l'oubli,
Brisant nos cœurs et nos têtes,
A jamais, nous réunit.


Serge Gainsbourg (1928-1991)


Jane Birkin

ouvindo:
La noyée (Serge Gainsbourg)
Carla Bruni


Quarta-feira, Janeiro 07, 2004

O convento de Beja era certamente a antítese do Port-Royal: Mariana Alcoforado podia receber aí livremente o seu amante numa cela bem pouco monacal. Mas não resta dúvida de que foi num convento que surgiu um dos exemplos mais comoventes de amor sublime.

Benjamin Péret, «Le Noyau de la Comète»,
Anthologie de l'Amour Sublime


QUARTA CARTA

... ... ... ... ...
Vivo, e, como desleal, faço tanto para conservar a vida como
para perdê-la!...
Morro de vergonha... Acaso a minha desesperação existe
somente nas minhas cartas?...
Se eu te amasse com aquele extremo que milhares de vezes
te disse, não teria eu já há longo tempo cessado de viver?...
Enganei-te... Tens toda a razão de queixar-te de mim... Ah!
porque te não queixas?...
Vi-te partir; nenhumas esperanças posso ter de voltar a ver-te,
e ainda respiro!... É uma traição...
peço-te dela o perdão.
Mas não mo concedas...
Trata-me rigorosamente.
Não julgues os meus sentimentos assaz veementes...
Sê mais difícil de contentar...
Ordena-me nas tuas cartas que morra de amor por ti...
Oh! conjuro-te a que me dês este auxílio, para poder vencer
a fraqueza do meu sexo e pôr termo às minhas irresoluções por
um golpe de verdadeiro desespero.
Um fim trágico obrigar-te-ia, sem dúvida, a pensar muitas vezes em mim...
A minha memória te seria cara e quiçá esta morte extraor-
dinária te causaria uma sensível comoção.
E a morte não é porventura preferível ao estado a que me
reduziste?
Adeus!
Muito quisera nunca haver posto os olhos em ti.
Ah! sinto vivamente a falsidade deste sentimento, e conheço
neste mesmo instante em que te escrevo quanto prefiro e prezo
mais ser infeliz amando-te do que não te haver jamais visto.
Cedo, sem murmurar, à minha malfadada sorte, já que tu não
quiseste torná-la melhor. Adeus.
Promete-me conservar uma terna e maviosa saudade de mim
se eu falecer de dor; e assim possa ao menos a violência da mi-
nha paixão inspirar-te desgosto e afastar-te de tudo!
Esta consolação me será suficiente, e se for forçoso que te aban-
done para sempre, desejara muito não deixar-te a outra.
Dize: não seria nímia crueldade a tua se te servisses do meu
desespero para pareceres mais amável, mostrando que acendeste
a maior paixão que houve no mundo?
Adeus, outra vez...
Escrevo-te cartas excessivamente longas, no que revelo uma
falta de consideração por ti; peço-te mil perdões e atrevo-me a espe-
rar que terás alguma indulgência para com uma pobre insensata
que o não era, como tu bem sabes, antes de amar-te.
Adeus.
Parece-me que demasiadas vezes me dilato em falar do esta-
do insuportável em que estou.
Contudo, agradeço-te, do íntimo do seu coração, as mortifi-
cações que me causas e aborreço o sossego em que vivi antes de
conhecer-te.
Adeus.
A minha paixão aumenta a cada momento.
Ah! quantas coisas tinha ainda para dizer-te!...

(tradução de Morgado de Mateus, in As Cartas da Religiosa Portuguesa)

Soror Mariana Alcoforado (1640-1723)



ouvindo:
Pequena serenata em sol maior k.525
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)



Cidade de Salzburgo

O caminho de casa

Volto de noite para casa.
Tudo é memória fora de mim
ou onde em mim alguém conduz
fisicamente o automóvel.

Como não estarei
nem não estarei
em nenhum sítio, voltando
absolutamente para casa?

Subindo as escadas grave e inocente
como quem volta à noite para casa
e voltando para casa inteiramente
e adormecendo em mim como em casa?

Porto, 9/2/85

Manuel António Pina (n.1943)

ouvindo:
I gotcha
Joe Tex

Segunda-feira, Janeiro 05, 2004

O amor é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.

Fernando Pessoa (1888-1935)


Fernando Pessoa na adega de Abel Pereira da Fonseca, em 1929. Esta fotografia enviou-a ele a Ophelia Queiroz com a inscrição: «Fernando Pessoa em flagrante delitro».

ouvindo:
Variações em mi menor
António Chainho

Sábado, Janeiro 03, 2004

Amo o silêncio

Amo o silêncio e as vozes que insinuam,
Meigas ciciam, musicais, veladas,
Fracas, serenas, pálidas, cansadas,
Doces palavras que no ar flutuam.

Amo o silêncio e a luz difusa... E amo
A tarde cor de cinza, a chuva calma,
E o mar sem ondas, liso como a palma
Da minha mão aberta... E em cada ramo

Das árvores sem folhas, amo os verdes
Musgos pendentes, flácidos, em tiras...
Assim, minh'alma extática, suspiras,
Meu coração tranquilo, assim te perdes!

Rude fragor do mundo, sombra fria,
Passa de largo! Não me acordes, não!
Deixa correr a fonte da ilusão,
Enche-me a vida de melancolia...

Cabral do Nascimento (1897-1978)


2001 Fotografia de Paulo Moura

ouvindo:
Sounds of silence
Banda sonora original do filme "The Graduate"