O convento de Beja era certamente a antítese do Port-Royal: Mariana Alcoforado podia receber aí livremente o seu amante numa cela bem pouco monacal. Mas não resta dúvida de que foi num convento que surgiu um dos exemplos mais comoventes de amor sublime.
Benjamin Péret, «Le Noyau de la Comète»,
Anthologie de l'Amour Sublime
QUARTA CARTA
... ... ... ... ...
Vivo, e, como desleal, faço tanto para conservar a vida como
para perdê-la!...
Morro de vergonha... Acaso a minha desesperação existe
somente nas minhas cartas?...
Se eu te amasse com aquele extremo que milhares de vezes
te disse, não teria eu já há longo tempo cessado de viver?...
Enganei-te... Tens toda a razão de queixar-te de mim... Ah!
porque te não queixas?...
Vi-te partir; nenhumas esperanças posso ter de voltar a ver-te,
e ainda respiro!... É uma traição...
peço-te dela o perdão.
Mas não mo concedas...
Trata-me rigorosamente.
Não julgues os meus sentimentos assaz veementes...
Sê mais difícil de contentar...
Ordena-me nas tuas cartas que morra de amor por ti...
Oh! conjuro-te a que me dês este auxílio, para poder vencer
a fraqueza do meu sexo e pôr termo às minhas irresoluções por
um golpe de verdadeiro desespero.
Um fim trágico obrigar-te-ia, sem dúvida, a pensar muitas vezes em mim...
A minha memória te seria cara e quiçá esta morte extraor-
dinária te causaria uma sensível comoção.
E a morte não é porventura preferível ao estado a que me
reduziste?
Adeus!
Muito quisera nunca haver posto os olhos em ti.
Ah! sinto vivamente a falsidade deste sentimento, e conheço
neste mesmo instante em que te escrevo quanto prefiro e prezo
mais ser infeliz amando-te do que não te haver jamais visto.
Cedo, sem murmurar, à minha malfadada sorte, já que tu não
quiseste torná-la melhor. Adeus.
Promete-me conservar uma terna e maviosa saudade de mim
se eu falecer de dor; e assim possa ao menos a violência da mi-
nha paixão inspirar-te desgosto e afastar-te de tudo!
Esta consolação me será suficiente, e se for forçoso que te aban-
done para sempre, desejara muito não deixar-te a outra.
Dize: não seria nímia crueldade a tua se te servisses do meu
desespero para pareceres mais amável, mostrando que acendeste
a maior paixão que houve no mundo?
Adeus, outra vez...
Escrevo-te cartas excessivamente longas, no que revelo uma
falta de consideração por ti; peço-te mil perdões e atrevo-me a espe-
rar que terás alguma indulgência para com uma pobre insensata
que o não era, como tu bem sabes, antes de amar-te.
Adeus.
Parece-me que demasiadas vezes me dilato em falar do esta-
do insuportável em que estou.
Contudo, agradeço-te, do íntimo do seu coração, as mortifi-
cações que me causas e aborreço o sossego em que vivi antes de
conhecer-te.
Adeus.
A minha paixão aumenta a cada momento.
Ah! quantas coisas tinha ainda para dizer-te!...
(tradução de Morgado de Mateus, in
As Cartas da Religiosa Portuguesa)
Soror Mariana Alcoforado (1640-1723)
ouvindo:
Pequena serenata em sol maior k.525
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Cidade de
Salzburgo