Domingo, Abril 25, 2004

O nome das coisas

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

ouvindo:
Zé Eduardo Unit a jazzar no cinema português
Grândola, vila morena (José Afonso, letra e música)



Zé Eduardo Unit

Sábado, Abril 24, 2004

Viver sempre também cansa!

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul,
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica!
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaro,
como máquinas verdes;

As paisagens também não se transformam!
Não cai neve vermelha!
Não há flores que voem!
A lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua!

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens!
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação!
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos;
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano,
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte!

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer, com o teu sorriso
onde há um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã!
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela!”
E virias, depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a morte, ainda menina, no meu colo!

Maio, 1931

José Gomes Ferreira

ouvindo:
The end
The Doors



Quinta-feira, Abril 01, 2004

Não, Amigo
tu és injusto
eu dou-me mais do que tu
encontro em ti o que não me dá trabalho procurar
porque te amo.
Aprendo, aprendo contigo mais do que tu comigo
tu deixas-te amar
tu deixaste que eu te ame
que já não posso arrepender-me
nem dar a outro este amor
por enquanto,
sem saber do teu.
Se te enganaste eu seguirei sem ti
talvez para não voltar jamais a ninguém
para ficar suspendido da vida como resto do nosso amor
mas tu, verás, o pior
é para ti:
Quem se engana uma vez no amor
jamais terá a certeza de quando acerta.

Almada Negreiros (1893-1970)

ouvindo:
Fantasia op.116
Nº.6 em mi menor
de Johannes Brahms (1833-1897)