Terça-feira, Julho 27, 2004

AMOR é um arder, que não se sente

Amor, é um arder, que se não sente;
É ferida, que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia a mais cruel, e a mais impura;
É frágua, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando, em quando;
É quem me causa eternos sentimentos;
É quem me mata, e vida me está dando.

Abade de Jazente

ouvindo:
i'm still waiting - Perry Blake

Segunda-feira, Julho 26, 2004

Café do Molhe

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

Manuel António Pina

ouvindo:
Glenn Gould plays not Bach

A primeira nocturna em ré maior
de Bizet
faixa 8 do cd nº2

Domingo, Julho 25, 2004

Sono de Primavera

Adormeço sempre com o teu mamilo
entre os dedos da minha mão
E o meu sono é tranquilo
como o das rosas

Jorge Sousa Braga

ouvindo:
detour ahead - Charlie Haden
Joelho

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a lingua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas

Maria Teresa Horta

ouvindo:

Fantastic Plastic Machine
steppin'out (costes re-edit)

mas cheio de saudades
do original:

Steppin' Out

Sábado, Julho 24, 2004

Enconanços

Olhar mulher deitada na penumbra
e com rancor morder-lhe os seios.

Sentir que o cavalete falta a Caravaggio
e dar-lhe uma muleta de toureiro.

Ver os dedos pequenos da Maria João
abotoar a casaquinha de Mozart
e vir depois no fim
com um prato de pevides.

Saltar sobre as telhas de vidro do profeta
só para saber se ele limpava o rabo ao higiénico.

Soletrar Joyce nos seus exílios palavrosos
e colocar no dedo esse dedal do medo
que ajuda a costurar as prosas metafísicas.

Olhar a cadela no seu parto custoso
e matar a ninhada contra uma parede.

Andar de pedra em pedra nas névoas de Peniche
e vir a correr para casa por causa do poema.

Cheirar a mãe nas tocas da infância
E expor o seu cadáver aos gulosos do umbigo.

Ter a planta dos cheiros nos pólipos da lingua
e mastigar o requentado cozido.

Medir com paciência a exaltação dum Velho
e retirar-lhe a bengala memória nos degraus da Morte.

Não mecher uma palha porque o leite é vadio
e pôr no frigorífico os ovos seminais
da poedeira obtusa que se tem em casa.

Pensar certas palavras nos quartos da loucura
e ter uma salinha só para as visitas.

Alarmar a noite com giz fosforescente
e sentar-se na cama como uma viúva
de útero trespassado pela saudade.

Dizer que sim aos mortos com aquele gesto
ineficaz de quem procura
nos cinemas a quente e conformada sepultura.

Uivar no túnel com a agulha atravessada
na garganta e esperar o comboio
em que regressam as felizes pombas da memória.

Mentir e não mentir com medo de mentir
deixar que o galo cante
e tenha nas manhãs o seu poleiro
enquanto o dia cresce realmente obsceno
e grosso e verdadeiro.

Armando Silva Carvalho

ouvindo:

The touch of your lips (Ray Noble)
Chet Baker
Recolhes tudo o que és e segues a paz
Puxas o amor com a alma colada aos pés
Deixas o sangue forrar o chão de dor
Para onde vais?
A eternidade pode ser o pôr-do-Sol
Felicidade é não temeres abrir a porta de ti
Estropia o sufoco genuíno, toca-lhe a pele suja
Senta-te na calçada, deixa as lágrimas serem lama no pó
E quando te levantares, o eterno será já ali

Hugo Cadete

ouvindo:

Fanfare for the common man
Aaron Copland (1900-1990)


2004 Fotografia de Paulo Moura

Sexta-feira, Julho 23, 2004

As PESSOAS que efectivamente
ainda me fazem AMAR este País
estão a desparecer.



nota:
Este disco foi-me oferecido pelo meu pai
em formato vinil, mas só o comecei
a ouvir atentamente
pela mão do meu grande amigo
José Manuel Almeida.
Continua a fazer-me companhia até hoje
e para sempre.
 

Quarta-feira, Julho 14, 2004

New York 1970

Vi o Hudson
E a sua pele de pantera escura

Vi o Hudson
E a sua pele de pantera escura

Atravessei Harlem às onze da noite
Vi rostos e rostos e rostos negros
E não ouvi jazz
E não ouvi ninguém
Cantar blues

Atravessei Harlen
Por entre uma multidão imensa
Sentada às portas

Atravessei Harlen
Noite fechada
E não ter ouvido ninguém tocar jazz
Não ter ouvido ninguém percorrer lentamente
O rio interminável de um blues

Foi como ter ouvido
Um silêncio de morte
No tumulto das vozes

Alberto de Lacerda
New York, 14 de Julho de 1970
in:

a páginas 177

ouvindo:

Num dos melhores discos de sempre, uma das melhores músicas de todo o planeta - A love supreme
John Coltrane

Segunda-feira, Julho 12, 2004

"E de novo acredito
que nada do que é importante
se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos,
julgando ser donos das coisas,
dos instantes e os dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei,
todos os amigos que se afastaram,
todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada,
apenas a ilusão de que
tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares