Sábado, Outubro 30, 2004

Poetas do AMOR

Senão todos algum
de nós reproduz diversos os mesmos lugares.
E aquela que entra no verso para o
percorrer
atrás da tua sombra serei eu.

Fiama Hasse Pais Brandão (n. 1938)
"Um dia sem música é um dia desperdiçado."

Paulo Moura

Segunda-feira, Outubro 25, 2004

Blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah não, ah sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: - morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

Vasco Graça Moura

ouvindo:
i put my baby out

Superharps

Sábado, Outubro 23, 2004

Ilha deserta

Era uma vez um homem como os mais,
a bordo de um navio,
singrando como os outros, sem desvio
das rotas naturais,
com máquinas pulsando como um coração
a bem do comércio e da navegação.

Mas vai a Lua que, nua, fluía
na piscina do Céu,
uma noite em que o homem se esqueceu
de fechar a vigia,
trepou pelas vagas
e arrebatou-o para ignotas plagas!

Pela manhã, no deck, os passageiros,
quando o souberam, tiveram pena
-as mulheres sobretudo: o raptado era de cor morena...-
Pezares de passageiros, passageiros...
À hora do almoço comeram bem
e ao jantar também.

Dormiram, amaram
e todos chegaram aos seus destinos
e depois foram ricos, felizes, tiveram meninos
que os continuaram.
E o navio, pesada lançadeira,
continuou – para lá, para cá – na terá inteira.

E o homem foi um náufrago perfeito.
A princípio chorou dias inteiros;
depois, para comer, foi trepando aos coqueiros,
e resignou-se a dormir só com a Lua no seu leito.
Tanto viveu assim que ficou lua:
andava com o corpo e a alma nua!

Vieram-lhe ambições. – Era rei dos macacos
se não morre, senhores! De indigestão de lua-cheia!
E assim acabou esta odisseia.
-Os outros mortos dormem em buracos;
este numa ilha deserta e singular,
jaz, se conserva em molho de luar!

António de Sousa

ouvindo:
groovin' high

Keith Jarrett, Gary Peacock, Jack DeJohnette

Quinta-feira, Outubro 21, 2004

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade

Ouvindo:
Chega De Saudade - com Bebel Gilberto

João Gilberto
Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.

Casimiro de Brito

Ouvindo:
Love is the drug

Roxy Music

Quarta-feira, Outubro 20, 2004

"Já lhe começo a sentir o som."


2004 Fotografia de Paulo Moura

Domingo, Outubro 17, 2004

A inigualável

Ai, como eu te queria toda de violetas
E flébil de cetim...
Teus dedos, longos de marfim,
Que os sombreassem jóias pretas...

E tão febril e delicada
Que não pudesses dar um passo-
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de cor no regaço...

Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas-
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas...

Ah! que as tuas nostalgias fossem guizos de prata-
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata...

Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim-
Os teus espasmos de seda...

-Água fria e clara nua noite azul,
Água, devia ser o teu amor por mim...

Mário de Sá Carneiro

ouvindo:
Nue au soleil

Brigitte Bardot

Sexta-feira, Outubro 15, 2004

Um adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia em que não vem a promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor á portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

***

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill (1924-1986)

ouvindo:
besame mucho (C. Velasquez)
Pascal Comelade
Poema melancólico a não sei que mulher

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...

Miguel Torga (1907-1996)

ouvindo:
when poets dreamed of angels

David Sylvian

Quinta-feira, Outubro 14, 2004

Esquece-te de mim, Amor,
das delícias que vivemos
na penumbra daquela casa,
Esquece-te.
Faz por esquecer
o momento em que chegámos,
assim como eu esqueço
que partiste,
mal chegámos,
para te esqueceres de mim,
esquecido já
de alguma vez
termos chegado.

António Mega Ferreira

ouvindo:
Piano Sonata em dó maior k.545

Maria João Pires

Quarta-feira, Outubro 13, 2004

Amizade

De mais ninguém, senão de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar:-«Espera e confia!»
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.

Carlos Queirós

ouvindo:

Barroque impressions

Cyrus Chestnut

Segunda-feira, Outubro 11, 2004

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira

No absoluto silêncio, consegue-se ouvir o próprio bater do coração