Terça-feira, Agosto 30, 2005

Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.

Fernando Pessoa

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Gesso original do bronze existente
frente à Brasileira do Chiado
Lagoa Henriques

Segunda-feira, Agosto 29, 2005

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Fotografia de Paulo Moura
Agosto 2005

You may forget but

you may forget but
let me tell you
this: someone in
some future time
will think of us

Sappho

ao som de:
In the Waiting Line

Zero 7

Sábado, Agosto 27, 2005

Aos que virão a nascer

I
É verdade, vivo em tempo de trevas!
É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa
Revela insensibilidade. Os que riem
Riem porque ainda não receberam
A terrivel notícia.

Que tempos são estes, em que
Uma conversa sobre árvores é quase um crime
Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade?
Aquele ali tranquilo a atravessar a rua,
Não estará já disponível para os amigos
Em apuros?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Mas acreditem: é puro acaso. Nada
Do que faço me dá direito a comer bem.
Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar estou perdido.)

Dizem-me: Come e bebe! Agradece por teres o que tens!
Mas como posso eu comer e beber quando
Roubo ao faminto o que como e
O meu copo de água falta a quem morre de sede?
E apesar disso eu como e bebo.

Também eu gostava de ter sabedoria
Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:
Retirar-se das querelas do mundo e passar
Este breve tempo sem medo.
E também viver sem violência
Pagar o mal com o bem
Não realizar os desejos, mas esquecê-los
Ser sábio é isto.
E eu nada disso sei fazer!
É verdade, vivo em tempo de trevas!

II
Cheguei às cidades nos tempos da desordem
Quando aí grassava a fome
Vim viver com os homens nos tempos de revolta
E com eles me revoltei.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

Comi o meu pão entre as batalhas
Deitei-me a dormir entre os assassinos
Dei-me ao amor sem cuidados
E olhei a natureza sem paciência.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

No meu tempo as ruas iam dar ao pântano.
A língua traiu-me ao carniceiro.
Pouco podia fazer. Mas os senhores do mundo
Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

As forças eram poucas. A meta
Estava muito longe
Claramente visível, mas nem por isso
Ao meu alcance.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

III
Vós que surgireis do dilúvio
Em que nós nos afundamos
Quando falardes das vossas fraquezas
Lembrai-vos
Também do tempo das trevas
A que escapastes.

Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos, atravessámos
As guerras de classes, desesperados
Ao ver só injustiça e não revolta.

E afinal sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Desfigura as feições.
Também a cólera contra a injustiça
Torna a voz rouca.
Ah, nós
Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade
Não soubemos afinal ser amáveis.

Mas vós, quando chegar a hora
De o homem ajudar o homem
Lembrai-vos de nós
Com indulgência.

Tradução de: João Barrento

ALEMANHA
Bertolt Brecht (1898-1956)


"H for Heart" - 1991
Peter Blake

Terça-feira, Agosto 23, 2005

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"Symphonica Blu"
óleo sobre tela
pintura de Paul N. Grech

jazz a única música do século vinte
original
as outras todas a ele foram beber, sorver,
umas para vender
outras à socapa
fusões ingratas


in: poezz a págs.258

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no Paris Jazz Corner em Julho de 2001

Domingo, Agosto 21, 2005

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Cartaz em parede de metro
Paris 2005

Feminina

Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas «banquettes» dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó-de-arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.

Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro-
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer «potins»-muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar-
Eu queria ser mulher para que me me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.

Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto-
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar...

Paris - Fevereiro, 1916

Mário de Sá-Carneiro
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Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papeis pintados com tinta
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

ao som de:
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Sexta-feira, Agosto 19, 2005



Rue Dauphine

The Velvet Underground meets
The Velvet gentleman
Running down the Boulevard Saint-Germain
Happy in the spring sunshine
Into the rue Verneuil
And the house of Serge Gainsbourg
On his piano sits a portrait of Sid
Sid Vicious I sing to you
For all the things that you do
Because I love you like a girl

Capturing Catherine Deneuve
Sighing to the old Paris of Verlaine
I groan with pain as I licked
The Queen of the Timbre Poste
Several times and sent her off
To friends in foreign parts

Malcolm Mclaren

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Terça-feira, Agosto 09, 2005

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"...Paris é imortal e as recordações das pessoas que lá vivem diferem de umas para as outras. Acabamos sempre por voltar, sejamos nós quem formos, ou mude Paris no que mudar, ou sejam quais forem as dificuldades ou as facilidades que, ao regressarmos, se nos deparem. Paris vale sempre a pena, pois somos sempre compensados de tudo o que lhe tivermos dado."

in "Paris é uma festa" de Ernest Hemingway

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a ouvir: