Sábado, Junho 04, 2011
Segunda-feira, Abril 25, 2011
Quarta-feira, Março 23, 2011
Há nos filmes pornográficos a
mais o que nos outros há
a menos, porque não hei-de
ver a crucial imagem da cama?
Fazia falta esta cena
em que me posso representar
no actor principal, assim
com a coluna torta como a estátua
debruçada de um homem a chorar.
A verdade é que há lágrimas
muito sentidas. Por outro lado
a pieguice é uma coisa dos homens,
de alto valor sociológico.
Mas na poesia, enfim,
como se podia ser cruel e puro?
Que cansaço nestas setas
que rodam a fita gravada, procurei
um símbolo e nas minhas mãos
vi o fumo da cinza de gestos
tolhidos, uma laboriosa mentira.
Helder Moura Pereira
in Poemas com Cinema
Segunda-feira, Fevereiro 21, 2011
Domingo, Janeiro 30, 2011
Sábado, Janeiro 15, 2011
Sábado, Outubro 30, 2010
Da Poesia que Posso
Há uma certa maré nas coisas humanas
Espero pelo verão como por outra vida
no inverno é que o verão existe verdadeiramente
É o dia em que segundo alguns jornais
john hoare e david johnstone iniciam
a travessia do atlântico num barco a remos
É o dia das grandes travessias
o mar a vida isso que importa?
Dios qué bueno es el gozo por aquesta mañana
aqui na orla da praia mudo e contente do mar
Ao chegar aos cinquenta sessenta anos
Quando os fizer talvez pense nisso
e não agora a tanto tempo de distância
Agora sou do cúmulo da tarde
desta tarde no início do outono
ou do início desta tarde de outono
Só depois é que pergunto que fazer de tudo isto
que torna o cid meu contemporâneo
Dios qué bueno es el gozo por aquesta mañana
de um dia em que me achei mais pachorrento
Manhã ou tarde? primavera ou outono?
Não sei pouco me importa
Pouco me importa o quê? Não sei
(o resto vem no pessoa
Pessoa é o poeta vivo que me interessa mais)
Basta a cada dia a sua própria alegria
e é grande a alegria quando iguala o dia
Ruy Belo
in Todos os Poemas
Domingo, Setembro 19, 2010
Segunda-feira, Agosto 09, 2010
Pastelaria
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.
Mário Cesariny
(Lisboa, 1923 - Lisboa, 2006)
Segunda-feira, Julho 26, 2010
Sábado, Julho 24, 2010
Terça-feira, Julho 13, 2010
Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que para a maioria, é só um dia mais.
José Saramago 1922-2010
Segunda-feira, Julho 12, 2010
Terça-feira, Junho 15, 2010
Escrito de memória
Formado em direito e solidão,
às escuras te busco enquanto a chuva brilha.
É verdade que olhas, é verdade que dizes.
Que todos temos medo e água pura.
A que deuses te devo, se te devo,
que espanto é este, se há razão pra ele?
Como te busco, então, se estás aqui,
ou, se não estás, por te quero tida?
Quais olhos e qual noite?
Aquela
em que estiveste por me dizeres o nome.
Não sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intemida em que me esqueces.
Não sei, amor, se as lavas do vulcão
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ou coração
de tudo e de ti mesma. Não que sintas
outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,
o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes.
Pedro Tamen (n. 1934)
Quinta-feira, Maio 20, 2010
Quarta-feira, Maio 19, 2010
Endormie
de Roman Zaslonov
Quando ficares velha, grisalha e sonolenta
E te aqueceres à lareira, pega neste livro
E lê-o devagar, sonha com o olhar meigo
E com as sombras profundas outrora nos teus olhos;
Quantos amaram os teus momentos de feliz encanto
E a tua beleza com amor falso ou autêntico,
Além daquele homem que amou em ti a alma peregrina
E as tristezas que alteravam o teu rosto;
E curvando-te mais sobre a lareira ao rubro
Murmura, um pouco triste, como o Amor se foi
E caminhou sobre as montanhas lá no alto
E escondeu o rosto numa multidão de estrelas.
William Butler Yeats
Quinta-feira, Maio 13, 2010
Martin Creed
Work No. 374
Work No. 374
Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.
Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.
Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.
Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.
Maria Rosário Pedreira
in O Canto do Vento nos Ciprestes
Terça-feira, Abril 06, 2010
Quarta-feira, Março 31, 2010
Hoje li esta Página da mais conceituada
editora de DVD's do Globo Terrestre.
editora de DVD's do Globo Terrestre.
Pena é que os outros editem o que nós,
por vezes, nem ao cinema vamos ver.
Parabéns Pedro pela tua obra.
Criterion (clicar aqui)
por vezes, nem ao cinema vamos ver.
Parabéns Pedro pela tua obra.
Criterion (clicar aqui)
Domingo, Março 28, 2010
Coisas que já fiz na cidade do Porto:
Já vi nascer o dia no jardim do Morro do qual fiz um filme. Oiço música todos os dias num rádio a válvulas. Já comi Sopa de Peixe no Mauritânia Real (Matosinhos). Já ouvi a Amália Rodrigues a olhar para o Douro. Já comprei sacos de Costinhas na Minhotinha. Já bebi um fino ao balcão do Piolho. Já andei de Vespa, tive furos e namorei pelas ruas estreitas da Foz Velha. Já comi Francesinhas no Bufete Fase. Já comi um croissant quente na Doce-Mar. Já vi o fim de tarde na Casa de Chá projectada pelo arquitecto Siza Vieira (Leça). Já pedi um café com história no Progresso. Já ouvi muito bom Jazz tocado pelos alunos da ESMAE. Já lanchei na Rota do Chá. Já conversei com o Malcriado de Matosinhos. Já pedalei desde Matosinhos até à Ribeira. Já bebi o melhor Irish Coffee desta cidade no Bonaparte. Já conversei sobre cinema na Queijaria Amaral. Já dancei até de manhã no Plano B. Já desci os caminhos do Romântico e lá acabei por tirar algumas das minhas mais belas fotografias. Já comprei livros fora do normal na Utopia. Já apitei com força no túnel da Ribeira. Já fiz um filme com os meus sobrinhos na casa da Animação. Já fui com alguém muito especial à Petrogal (Leça). Já comi gelados na Sincelo. Já mandei fazer um Vinil na Rua do Almada. Já comi chocolate quente à colher no Pinguim. Já tomei o pequeno-almoço na Tavi a olhar para o mar. Já comprei revistas raras na Tabacaria Belas Artes ao Sr. Pinto. Já cheguei ao céu no Vip Lounge. Já comprei flores no Bolhão. Já torci pelo Salgueiros na Sra. da Hora. Já viajei no eléctrico 1. Já passei 48 horas seguidas nos jardins de serralves. Já joguei minigolfe na Foz.
Por tudo isto e por tudo aquilo que ainda quero fazer, não troco a minha cidade por mais nenhuma deste Mundo.
Este é o meu Porto de abrigo e a cidade que continuo a AMAR.
Sempre que viajo, a primeira coisa que faço
ao chegar a qualquer cidade é
tomar um café
e dar uma vista de olhos na "Time Out"
dessa mesma cidade.
Ficava triste por não haver ainda a "Time Out"
desta cidade que digo ser minha.
Agora já existe,
mas fico na mesma triste,
o pior é que não entendo porquê...
Será por perder estas 101 coisas
para fazer no Porto
enquanto ando por aí a viajar?
Estranho!
Estranho mas depois entranho.
Parabéns Porto,
parabéns Time Out.
Segunda-feira, Março 22, 2010

L'amour transforme les êtres,
l'amour fou les transforme follement:
il les pousse aux extrêmes de l'incandescence,
du sacrifice, de la jalousie, de la souffrance, de l'exil,
à leur point de rupture avec la fadeur de la vie ordinaire.
Thème littéraire inépuisable, l'amour fou suffirait
à justifier, en plus, l'existence du cinéma. Seule la
voyeuse et songeuse caméra pouvait montrer avec
autant d'évidence les mille et une métamorphoses
des corps et des comportements qu'il provoque,
montrer aussi l'ébahissement et souvent la cruauté
de la société envers ceux qui aiment trop.
Parce qu'il réveille en chacun un désir d'absolu,
le cinéma n'est donc pas étranger à votre envie
de déclarer aujourd'hui à qui vous devriez
ou ne devriez pas:
je t'aime à la folie !
L'amour fou au cinéma
de
Giusy Pisano


















